Vitória - Quem circula nos ônibus do Sistema Municipal de Vitória se depara corriqueiramente com uma situação constrangedora: passageiros pulando a roleta. Homens, crianças e até mulheres grávidas, todos se acham no direito de não pagar a passagem.
Motoristas e cobradores trabalham com medo, pelas constantes ameaças. Segundo eles, não existe mais hora nem lugar para isso acontecer.
A reportagem entrou em duas das linhas consideradas as mais problemáticas de Vitória e flagrou algumas dessas cenas. Na linha 211 (Santo André/ Jardim Camburi), saindo do ponto final, um dos primeiros passageiros a entrar no ônibus pulou a roleta. Pouco depois, três garotos, que entraram juntos, passaram por cima, um seguido do outro.
Um cobrador da linha 211, que prefere não ser identificado, conta que antigamente isso acontecia apenas em São Pedro, ponto de partida do ônibus, mas hoje o problema é geral. "E ai do cobrador, ou do motorista que não deixar passar", afirma o cobrador.
A linha 331 (Ilha das Caieiras / Jucutuquara) é considerada a pior pelos motoristas. Em um pequeno trajeto percorrido dentro do ônibus, flagramos um menino pulando a roleta. Em seguida, uma mãe passou imprensada com a filha para pagar uma passagem só.
A ousadia é tanta que um homem, que estava com uma sacola na mão, parou antes da roleta e ficou pensando em onde iria apoiar os pés para pular. tentou dois jeitos e finalmente se decidiu por um, passando sem pagar.
Nos finais de semana a situação piora. Se tiver sol de manhã, todos vão e voltam da praia pulando a roleta. Se tiver baile à noite, a turma toda passa por cima. E não é só na periferia. Em Jardim Camburi, muitos dos considerados playboys, entram com roupa de marca, mas também não pagam a passagem.
Passageiros desafiam até a polícia
A insegurança de quem trabalha nesses ônibus é cada vez maior. Eles enfrentam um dilema diariamente: fazer valer a placa que diz "proibido dar carona" ou tentar garantir a própria segurança. Alguns passageiros fazem questão de mostrar que estão armados. Até crianças passam encarando os cobradores.
Em Bairro da Penha, os motoristas são obrigados a abrir as portas traseiras para o passageiro que não quer pagar. Um cobrador que fazia a linha 071 (Joana D‘Arc / Rodoviária) chegou a ser agredido fisicamente.
"Pedi para ele dar licença para as outras pessoas passarem. Ele veio para cima de mime começou a me bater. O pior é que ele disse que era estudante de Direito", conta. A reclamação dos funcionários é o descaso por parte da empresa e, muitas vezes, até da própria polícia. Eles contam que várias vezes policiais fardados estão no ônibus e presenciam passageiros pulando a roleta, mas não fazem nada. "Não há segurança nem para a população, vai haver para os ônibus?", diz o presidente do Sindirodoviários, Edson Bastos.
Linhas problemáticas
211 Santo André
331 Ilha das Caieiras
071 São Pedro / Maruípe
181 Bairro da Penha / Alagoano
175 Resistência / Rodoviária
213 Bairros Grande Vitória / Mata da Praia
204 Jaburu / Mario Cyprestes
O outro lado
Policiamento velado
Polícia Militar - assessoria de imprensa
A Polícia Militar informou, por meio da assessoria de imprensa, que faz policiamento velado nos coletivos das linha mais problemáticas da Grande Vitória e que sempre está em contato com a diretoria do Sindirodoviários para trocar informações e planejar as ações. Portanto, os motoristas devem contribuir passando todo tipo de informação aos membros do sindicato e, além disso, a população também pode fazer a sua parte por meio do Disque Denúncia, número 181.
Omissão de profissionais
Jaime Carlos De Angeli - secretário-geral do Setpes
O secretário-geral do Setpes, coronel Jaime Carlos De Angeli, disse que a empresa não tem poder de polícia e que o problema demonstra uma desobediência civil da sociedade. Ele afirma que a situação está fora de controle, mas foi gerada pela omissão de alguns profissionais quando a situação começou a acontecer. Ele informou que a empresa vai estudar uma forma de resolver o problema.